Ricardo Flores Magón
«Diga ao Presidente Díaz que escolher morrer sem ver os meus filhos. Diga aos meus filhos que prefiro vê-los pendurados numa árvore ou garroteados a presenciar o seu arrependimento por coisas que fizeram ou disseram».
Margarita Magón
Assim respondia Margarita Magón a um emissário de Porfírio Díaz, que oferecia a liberdade aos seus filhos, Ricardo e Henrique, em troca de um acto de contrição pública dos mesmos em favor do ditador mexicano.
Margarita era uma mestiça casada com o índio Teodoro Flores, oficial que havia participado no exército de Benito Juárez e lutado ao lado do então revolucionário Porfírio Díaz, contra as forças conservadoras no México.
Do resultado dessa união, nasceram três filhos: Jesús, Ricardo e Henrique. Muito cedo aprenderam com os pais a necessidade de lutar pela liberdade, As palavras que ouvia de seu pai eram:
«Como era diferente a vida em Teótilán (cidade onde nasceram os Magón, na década de 70 do ano 1800, situada na região de Oaxaca), e nas suas cercanias. Lá tudo se possui em comum, menos as mulheres. Todas as terras que rodeiam as nossas cidades pertencem à comunidade inteira. Pelas manhãs saímos para trabalhar nas terras, todos, menos os doentes, os idosos, os inválidos, as mulheres e as crianças. E cada um o faz com alegria, porue lhes dá forças saber que o trabalho será para o bem comum. Assim, quando é a época de colheita e de repartimento dos géneros entre os membros da tribo, cada um recebe de acordo com a sua necessidade. Por isso não há entre nós nem ricos nem pobres, nem ladrões nem mendigos».
Contudo, as ideias que lhes vinham da infância, não eram característica única desta família. De um modo geral todas as famílias índias lutavam pela preservação da sua cultura, da sua vivência colectiva, contra o invasor espanhol. Para os resistentes não se tratava apenas de uma questão de sobrevivência, que estaria assegurada pela submissão ao invasor. A questão tinha a ver com a recusa em viver com códigos de conduta alheios e, a defesa da forma de vida a que chamavam «O Costume» acompanhado de um profundo misticismo.
Esta defesa da manutenção da posse social da terra, as formas de representação política directa em assembleias impedia a consolidação de um Estado Nacional e a viabilidade de um capitalismo-conservador, defendido por Porfírio Díaz.
A luta dos indígenas, pela defesa das terras comunais, teve um impulso com a independência do México, e, foi reforçada pelos ecos e ideias de liberdade, igualdade e fraternidade, de que tinha sido exemplo recente, a Comuna de Paris, em 1871.
No último quartel deste século, várias revoltas armadas atravessam todo o México: Juan Santiago, à frente de uma força armada indígena tomava a cidade de Tamazunchale, debaixo da consigna: «Morte a todos os que usam calças de brancos», a Cidade de Muez é ocupada e o exército indígena arranca do governo parte das terras dos latifundiários. Há revoltas armadas, também, em Potosí, Papantla e Vera Cruz. Porfírio Diáz, extenuado, chega mesmo a assinar um tratado de paz no qual se comprometia a devolver as terras comunais. Cabe aqui dizer que muitas destas revoltas acabavam na morte por reacção governamental.
Foi neste contexto de lutas, de ideias revolucionarias, que na década de 90 daquele século, que os irmaõs Magón, iniciaram as suas actividades políticas. Lançaram o jornal «Regeneración», defendendo ideias liberais radicais e, ao mesmo tempo preparando o congresso fundador do Partido Liberal do México. O teor revolucionário da nova organização não permitia, entretando, a sua permanência no país. A polícia de Diáz persegueia os dirigentes do PLM, obrigando-os a exilar-se nos EUA. O jornal passou a ser publicado também no exílio e distribuído clandestinamente em todo o território mexicano.
No ano de 1906, o Partido Liberal lança, com enorme repercussão, o seu programa , um «Manifesto à Nação Mexicana». O Manifesto, com forte teor anticlerical, previa uma transformação radical nas relações de trabalho, na distribuição das terras e na organização geral da sociedade mexicana. No seu artigo 50, o manifesto afirmava:
«Ao triunfar o Partido Liberal, serão confiscados os bens dos funcionários enriquecidos pela ditadura actual, as terras serão restituídas aos yaquis, mayas e outras tribos, comunidades e indivíduos, e o que se produz será posto ao serviço de amortização da dívida nacional».
O PLM estava clandestino no México. mas o «Regeneración» continuava a difundir as suas ideias. Entre 1906 e 1908, diversas greves, sobretudo nas minas e fábricas de tecidos, e guerrilhas estouram influenciadas pelas células anarquistas. As greves acontecm com violência, e são reprimidas com energia pelo governo.
Em 1911, em pleno ascenso da Revolução Mexicana, os anarquistas, tendo à frente Ricardo Flores Magón, ocupam a Baixa Califórnia, com o auxílio da central sindical americana IWW. Na investida, os anarquistas tomam algumas cidades importantes, como Mexicali, e, em 30 de Janeiro, proclamam a primeira república socialista da história: a «República Socialista da Baixa Califórnia».
Estes acontecimentos e o rumo que levam causam preocupações a Díaz, as também a Francisco Madero, Para o futuro presidente, ainda em processo de guerra civil, a iniciativa dos anarquistas colocava em risco o estado de Direito no México. O magonismo caracterizava-se como uma oposição claramente radical e incompatível com a transição pacífica para um modelo democrático burguês. Após cinco meses de resistencia, os magonistas, isolados, atacados pelo exército ianque e sem apoio das forças que se opunham a Diáz, tiveram que recuar para o território americano.
Contudo, a influência dos Magón, e especialmente, de Ricardo Magón não cessava de crescer. Da tribuna do «Regeneración», os Magon declaravam a luta de classes. Defendiam uma concepção agrário-comunista com teor explosivo para a época. As suas ideias feriam de morte, os projectos defendidos por revolucionários burgueses.
Diziam, em 1910, Magón: «A solução do problema do homem não está na subdivisão da terra em pequenas propriedaes, mas em unir todas as terras e trabalhá-las em comum, sem patrões, governantes e tendo todos os homens e mulheres, o mesmo direito de trabalhar».
Às ideias dos Magón, muito depressa foi associado o grito de Tierra e Libertad, acabando por ser adoptado exército revolucionário Zapatista. Ricardo Magón teria dito que Zapata estava à frente do único grupo afinado com o seu programa.
Entretanto, a acção revolucionária dos Magón sofre fortes limitações com várias detenções em prisões dos EUA. Contudo, com as suas ideias, e o forte apoio que detêm mas massas mexicanos, chegam a ser convidados por Francisco Madero para cargos no governo saído da queda de Diáz. Ricardo Magón, o mais influente dos irmãos, teve um convite para ser vice-presidente da república, o mais novo dos irmãos, Henrique, o Ministério do Governo, que recusaram, ao contrário do irmãos mais velho, Jesús, que serviu no gabinete de Madero,
Com a revolução russa, os EUA iniciam uma política de perseguição aos «radicais» estrangeiros em território americano. Este fenómemo chamado de «Terror Vermelho» não poupou os irmãos Magón. Em 1920, Ricardo Magón, recusa uma pensão vitalícia do Estado mexicano, por entender que seria uma traição às suas convicções. Acaba por morrer, na sua cela, em Novembro de 1922, alguns dizem que foi assassinado. Por empenho dos ferroviários dos EUA e México, foi transladado para o seu país natal. Ao longo da via férrea, em território mexicano, foi escoltado pelos populares que lhe renderam a última homenagem. Actualmente encontra-se sepultado Rotunda das Personagens Ilustres, na Cidade do México.
O seu irmão Henrique, após a morte de Ricardo regressou ao México, acabando por ter desavências com outros integrantes do que foi a Junta organizadora do PLM.
Em 1933, juntamente com lídres da Liga Nacional Agraria particiou na fundação da Confederação Campesina Mexicana, que apoiou a candidatura de Lázaro Cárdenas, presidente que levou a cabo uma reforma agrária.
Henrique Magón faleceu na Cidade do México em Outubro de 1954.
Fontes: «Wikipédia» (internet) e Livro «Flores Magón, a Revolução Mexicana», Editora Imaginária, Brasil



