
Fez ontem 3 anos que morreu Vasco Gonçalves, que foi primeiro-ministro de Portugal.
Dei uma volta pela imprensa, e, não encontrei nenhuma referência ao assunto.
Mas muita gente, sobretudo os portugueses que têm pelo menos 50 anos, não se esqueceram do Companheiro Vasco.
Numa época em que o país, a Europa e até o Mundo se encontram sem rumo, fruto do neoliberalismo exacerbado, recordemos a figura e as ideias de Vasco Gonçalves, primeiro-ministro de Portugal entre Junho de 1974 e Setembro de 1975. Foram 452 dias marca indelével da História de Portugal.
O povo chamava-lhe «Companheiro Vasco» e a contra-revolução, depreciativamente, apelidou a sua governação de tempo do «gonçalvismo».
Sejamos objectivos: vejamos qual era o projecto que tinha Vasco Gonçalves, lendo o extracto da entrevista que deu a Viriato Teles, publicada no livro "Contas à Vida – Histórias do Tempo que passa". http://resistir.info/portugal/entrev_vg.html"
«A Revolução de Abril instaurou um regime de amplas liberdades, garantias e direitos políticos, cívicos, culturais, sindicais e laborais; destruiu as bases do capitalismo monopolista de estado e dos grupos económicos monopolistas; nacionalizou a banca e as companhias de seguros, os sectores básicos da produção, as principais empresas de transportes e comunicações, criando um sector público de peso determinante na nossa economia, na regulação do mercado e no comércio externo; realizou a Reforma Agrária com a supressão do latifúndio, dando origem à constituição de unidades colectivas de produção constituídas e dirigidas por trabalhadores assalariados rurais, trabalhadores sem terra e pequenos e médios proprietários rurais; aprovou uma nova lei de arrendamento rural, e devolveu aos povos os terrenos baldios; melhorou e dignificou substancialmente as condições de vida dos trabalhadores em geral e das mais vastas camadas da população; promoveu transformações progressistas no ensino, e um extraordinário aumento da frequência escolar; aprovou a criação do Serviço Nacional de Saúde, e desenvolveu a cultura e o desporto populares. As conquistas democráticas alcançadas, nomeadamente no período mais criativo da Revolução, entre o 11 de Março e a queda do V Governo Provisório, foram todas consagradas na Constituição da República de 1976. A Constituição é filha da Revolução. As conquistas de Abril eram o caminho para o futuro de Portugal. Elas continuam, hoje, a ser devidamente analisadas, ponderadas, adaptadas e ajustadas, um objectivo para esse futuro, face às novas realidades do nosso país e do mundo. Uma missão da OCDE que esteve entre nós de 15 a 20 de Dezembro de 1975, composta por três professores do Departamento de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachussets afirmou no seu relatório que "no princípio de 1976 a economia portuguesa está surpreendentemente saudável". A política económica que foi posta em prática, numa situação com as características da situação revolucionária que vivemos, naturalmente agitada e de grandes contradições sociais, no contexto da crise capitalista de 1973-75, a maior do pós-guerra, mostrou-se, pois, adequada. Penso que, nas suas linhas estruturais, definidoras, o ordenamento económico-social constitucional, de 1976, era correcto. Foram, precisamente, as mudanças estruturais, as nacionalizações, a reforma agrária, a participação dos trabalhadores, os aumentos salariais, a intervenção do Estado nas empresas em dificuldades que salvaram a nossa economia do colapso. Foi a falta do cumprimento, do ordenamento económico-social constitucional, foi a política neoliberal globalizadora, deliberadamente destrutiva desse ordenamento (privatizações, destruição da reforma agrária, cerceamento dos direitos dos trabalhadores, submissão às directivas da União Europeia, mercantilização da saúde, do ensino, da segurança social, etc.) que conduziram á presente situação. A mudança da correlação de forças políticas e sociais, civis e militares fez que não fossem consolidadas as conquistas da Revolução, e foi a origem dum processo contra-revolucionário que decorre há cerca de 28 anos.»
1 comentário:
Lembro-me de andar na rua a cantar, - Força, Força companheiro Vasco..., homens como o Vasco não foram feitos para a politica, era demasiado sério e coerente para tal. Como se recorda, o agora "senador M.S." e o grupo que o apoiou e, apoia a actual maioria, aliado aos sectores mais retrógrados, depressa o apelidou de maluco. Esta raça de homens só se mantêm no poder em regimes ditatoriais e o Vasco não era um ditador bem pelo contrario, era um verdadeiro amigo do povo e o povo, parece que muitas vezes não merece. Um abraço.
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